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Final de maio.

Não gosto de café, mas o cheiro me chega como um eco dos pequenos prazeres conhecidos e de tudo que aquece por dentro. Dias frios, pensei, são os que mais combinam com café quente e são os melhores para mergulhar na nostalgia, mas aqui na Bahia nosso cotidiano tropical e as tardes modorrentas rescendem ao agora, faiscantes de vida e sempre muito presentes. Final de maio, signo de gêmeos, embora não acredite em astrologia. É que você sabe, eu não acredito em muita coisa, e desconfio de quase todo o resto. Em alguns dias junho chegará – o mês em que nasci, o mês do São João e das bandeirolas, o mês em que o outono lentamente se transforma em inverno e os dias de Sol se entrelaçam com os dias de chuva, quando as gotículas de água pendem delicadamente dos fios elétricos como pérolas reluzentes, quando quem está em casa busca um cobertor quente, e aqueles que vivem nas ruas se arranjam como podem. Mas ainda é maio e, embora às vezes chova, ainda há tempo, ainda tenho vinte e quatro anos. Sempre há tempo, e junho vem aí, com meus vinte e cinco anos. Junho será lindo, assim escrevi.

Veiga.

Pensa mais nele do que ele próprio se dá conta, e como poderia ser de outro modo? Tem por hábito afastar-se quando não de sente encorajado, tanto para não sufocar com uma atenção indesejada, como por amor próprio. Por isso, aqui, neste reino em que é senhor de si, mas não de seus pensamentos, suspira por aqueles olhos de um castanho tão simpático e pelo sorriso que tem vontade de beijar incontáveis vezes, que é de uma doçura que não sabe descrever. Mas apenas espera e, enquanto isso, vive. E se ele vier, lindo. Se não vier, lindo também.

À janela.

Encontro por acaso um fragmento de texto de cinco anos atrás que diz bem assim: em meio à exuberância de verde em frente ao meu prédio, vejo, bem no alto, uma amendoeira com metade de suas folhas vermelhas, uma bela visão para estimular terças-feiras em que estamos cinzentos.
Em poucas hora será terça-feira de novo, mas à noite e à distância todas as árvores são negras. As amendoeiras, eu me lembro, fizeram parte da minha vida. Amendoeiras e viuvinhas. Havia amendoeiras em meu prédio, e uma grande amendoeira em meu colégio. Amendoeiras no caminho da casa daquele rapaz que se tornara um dos amores de minha vida, e que agora é apenas uma lembrança bonita, que não aperta ou angustia. Essas aqui foram as últimas amendoeiras que me restaram, nesse grande espaço abandonado, e a cada ano restam menos, vítimas das motosserras como no passado longínquo seriam dos machados. Ainda assim, durante a manhã as folhas das sobreviventes se colorirão de verde e, quem sabe, talvez de amarelo, laranja e vermelho. E essa será uma visão alegre, capaz inclusive de nos colorir por dentro.

Ele.

De nada me servia viver engessado àquilo que é esperado, se calça ou saia, terno ou vestido. E para ele tampouco importará a roupa que decidir usar, pois me preferirá vestido de vento e com flores nos cabelos, sarapintado da luz do Sol ou coberto pelo brilho do luar. E sim, eu o reconhecerei no devido tempo, pois as imposições sociais todas lhe parecerão de pouca ou nenhuma consequência, já que aquilo que aquece o peito e umedece entre as pernas será mais precioso do que tolas convenções. E não tem problema se, até então, tudo que vivi limitou-se à ameaça do que poderia vir a ser – algum dia dará certo, quando menos esperar, ou talvez quando mais esperar. Até lá, posso escrever, desenhar e sonhar.

Coragem.

Sua bravura por vezes parecia vacilar, ou talvez apenas estivesse cansado. Acostumado a nivelar os próprios sentimentos aos das outras pessoas, assustava-lhe ter de ser ele a dar aqueles passos, sobretudo sem o encorajamento necessário. Às vezes, inseguro, pensava em deixar para lá; no entanto, o passado não lhe ensinara que o silêncio, nesses casos, pode gerar como consequência apenas lamento e pesar? Amor-próprio é bom, e ainda lhe restava alguma dignidade, mas orgulho não enche barriga nem aquece o corpo à noite. E se não desse certo, tudo bem também. Não seria a primeira vez e, que se recorde, havia sobrevivido às demais.
Coragem!

Estegossauros.

Normalmente todos os dias, ou ao menos quando vou a algum lugar interessante, desenho um estegossauro voador na pele para dar sorte. Rigorosamente falando isso não é necessário pois, uma vez que se desenha um estegossauro pelo menos uma vez na própria pele – e tudo bem se isso for feito por outra pessoa -, a proteção é eterna, porque os estegossauros da felicidade e bem-aventurança nos marcam para sempre, uma espécie de benção silenciosa. Ontem, no entanto, triste e cansado por uma série de pequenas coisas que pouco a pouco nos minam sem que percebamos, decidi que não desenharia estegossauro algum. Marquei de sair e um amigo disse: “você já desenhou seu estegossauro? É o tempo de calçar o sapato”. Respondi que não, havia decidido não desenhar estegossauros aquele dia, mas que talvez devesse. E percebi que os estegossauros não têm culpa de tudo de não-tão-bom-assim que tem acontecido. Eles simplesmente não têm culpa. E independentemente do que aconteça, essa criação de um passado longínquo continua a me acompanhar, como algo querido e precioso que insisto em abraçar sem me importar com o fato de ter vinte e quatro anos e que garotos de vinte e quatro anos comumente não desenham estegossauros voadores em todos os lugares.
Ontem desenhei um estegossauro antes de sair. Hoje também. Mas se algum dia não der tempo, ou me sentir muito pequeno e exausto para isso, também não terá problema. Eles continuarão aqui.

Força.

Aquelas palavras me abalaram porque, no fundo, sempre ecoaram dentro de mim: o receio de que, por mais bonito ou inteligente ou interessante que seja, não serei o suficiente, ao menos não por tempo o bastante. E que em algum momento isso virá à tona, pois a realidade é implacável e não demora muito para se fazer presente. E, apesar disso, acalento a esperança quente e cansada de que chegarão aquele dia e aquela pessoa para quem tudo será diferente, para quem eu serei o bastante. Até lá, terei de ser o suficiente sim: só que para mim mesmo. E essa é e sempre será minha força.

Ficará tudo bem.