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Túmulo.

Três anos depois daquele dia horrível, em que o mundo foi destruído e precisou se refazer, retiramos seus ossos daquele jardim de lápides e a trouxemos para cá, lugar que chamamos de lar e que somente conheceu quando era pouco mais do que um sonho, para que seu corpo faça morada em um túmulo muito mais apropriado, junto a um pé de jasmim e coberto de grama verde, uma eterna primavera.
Enquanto fitava aquela caixa retangular, alva como são os ossos em minha imaginação, pensei como é estranho que bem ali, prestes a ser enterrada em um pedacinho de terra, esteja tudo que restou do que ela foi um dia.
Mas que bobagem, percebi. Minha mãe, meus tios e tias, e mesmo eu, assim como meu avô e todos que a conheceram e amaram, somos todos frutos de quem ela foi: se não do corpo, dos ensinamentos, do carinho e da história compartilhada. Como fui tolo, céus, por chegar a pensar que aquilo era tudo que restara dela.
Obrigado.

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Noite.

Rodei incontáveis vezes sob aquele céu amplo e cheio de estrelas, excessivamente claro mesmo para uma noite de primavera. Sob os pés, a grama molhada remetia à infância e a uma ancestralidade primitiva, em que meu corpo vibra em contato com a natureza primeva. E, em meio a esta tranquilidade que vem da simplicidade, as possibilidades de tristezas futuras e a prova de que nada, absolutamente nada é imutável. E isso, eu me lembro, já foi motivo de pranto e de júbilo.

Agora deitado, apenas espero que, o que quer que aconteça, os motivos para sorrir sejam mais abundantes. E que não seja um sorriso de resignação ou de desespero, mas de êxtase.

Que bela palavra carregada de promessas. Êxtase.

Confiança.

Sentira-se tentado, algumas vezes, a sucumbir às atitudes mesquinhas e aos sentimentos por trás delas; aqueles momentos de fraqueza e cansaço pelos quais todos corremos o risco de passar, você sabe, ou imagino que deva saber. Ainda assim, deu uma veemente recusa à possibilidade de ser outra coisa que não aquilo que era, e não permitiria que sua coragem fraquejasse: não devido à confiança que tem nos outros, veja bem, mas algo mais poderoso. A confiança que possuía em si mesmo. Desse modo, não se perderia; e, enquanto tivesse a si mesmo, ficaria tudo bem.

Tudo bem.

Dragão.

A batida de suas asas provocava um vento morno que balançava os cabelos e arrancava pequenas pedras do chão; no entanto, nada se comparava ao calor do seu peito, dos seus olhos, da língua de fogo que brilhava por entre as presas e que se refletia nas escamas luzidias. Os dragões, vocês sabem, eles são fogo, carne e céus amplos, muito azuis ou muito escuros, mas sempre aparentemente intermináveis. Nesse ponto, lembram bastante os estegossauros, e talvez por isso se deem tão bem – são, ambos, extraordinários.

Final de maio.

Não gosto de café, mas o cheiro me chega como um eco dos pequenos prazeres conhecidos e de tudo que aquece por dentro. Dias frios, pensei, são os que mais combinam com café quente e são os melhores para mergulhar na nostalgia, mas aqui na Bahia nosso cotidiano tropical e as tardes modorrentas rescendem ao agora, faiscantes de vida e sempre muito presentes. Final de maio, signo de gêmeos, embora não acredite em astrologia. É que você sabe, eu não acredito em muita coisa, e desconfio de quase todo o resto. Em alguns dias junho chegará – o mês em que nasci, o mês do São João e das bandeirolas, o mês em que o outono lentamente se transforma em inverno e os dias de Sol se entrelaçam com os dias de chuva, quando as gotículas de água pendem delicadamente dos fios elétricos como pérolas reluzentes, quando quem está em casa busca um cobertor quente, e aqueles que vivem nas ruas se arranjam como podem. Mas ainda é maio e, embora às vezes chova, ainda há tempo, ainda tenho vinte e quatro anos. Sempre há tempo, e junho vem aí, com meus vinte e cinco anos. Junho será lindo, assim escrevi.

Veiga.

Pensa mais nele do que ele próprio se dá conta, e como poderia ser de outro modo? Tem por hábito afastar-se quando não de sente encorajado, tanto para não sufocar com uma atenção indesejada, como por amor próprio. Por isso, aqui, neste reino em que é senhor de si, mas não de seus pensamentos, suspira por aqueles olhos de um castanho tão simpático e pelo sorriso que tem vontade de beijar incontáveis vezes, que é de uma doçura que não sabe descrever. Mas apenas espera e, enquanto isso, vive. E se ele vier, lindo. Se não vier, lindo também.

À janela.

Encontro por acaso um fragmento de texto de cinco anos atrás que diz bem assim: em meio à exuberância de verde em frente ao meu prédio, vejo, bem no alto, uma amendoeira com metade de suas folhas vermelhas, uma bela visão para estimular terças-feiras em que estamos cinzentos.
Em poucas hora será terça-feira de novo, mas à noite e à distância todas as árvores são negras. As amendoeiras, eu me lembro, fizeram parte da minha vida. Amendoeiras e viuvinhas. Havia amendoeiras em meu prédio, e uma grande amendoeira em meu colégio. Amendoeiras no caminho da casa daquele rapaz que se tornara um dos amores de minha vida, e que agora é apenas uma lembrança bonita, que não aperta ou angustia. Essas aqui foram as últimas amendoeiras que me restaram, nesse grande espaço abandonado, e a cada ano restam menos, vítimas das motosserras como no passado longínquo seriam dos machados. Ainda assim, durante a manhã as folhas das sobreviventes se colorirão de verde e, quem sabe, talvez de amarelo, laranja e vermelho. E essa será uma visão alegre, capaz inclusive de nos colorir por dentro.