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Cura.

Esse sempre foi o caminho mais certeiro para tocar seu coração, para conquistar a sua boa vontade: a bondade, a gentileza, e também a pena. Pena que pode ou não ser fruto do amor. Pena que tem muito em si de empatia.
E quando pensou nas dores daquele outro rapaz, aquele que já provara o sal de suas lágrimas, seu peito doeu junto, pois sofreu pelo outro, sofreu pelo que ele próprio já havia sofrido, colocou-se no lugar de todos. Lembrou-se então daquelas palavras que lhe ocorreram tempos atrás, quando outra perda que não era sua aconteceu: que a dor é uma linguagem universal.
Desejou-lhe muito amor. Amor que cura. Aventuras que curam. Alento, sabedoria. E cura, é isso, desejou-lhe cura.

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Separação.

Pensar em sua partida, embora me desperte sentimentos variados, normalmente faz com que me sinta triste, mas resignado. Como é uma decisão que independe de minha vontade, adoto a filosofia de que não adianta me desesperar, no máximo aceitar – e talvez lamentar. Ah, penso eu, mas concretizamos tantas possibilidades, e poderíamos ser tão felizes juntos. Um ano já, um ano e um mês. Mas, apesar de me perder nessas divagações, não sei o quanto disso é verdade. Digo que daríamos certo se fosse outro o contexto, se fossem outras as situações, mas o que somos nós (como eu li tantos anos atrás), se não quem somos e as nossas circunstâncias? E se não fosse essa circunstância específica, e nos mantivéssemos do modo como estávamos, estaria eu realmente feliz, ou simplesmente menos aborrecido? Talvez estivesse tão habituado a receber menos do que pouco, que aquilo me pareceu um banquete. E era mesmo, porque demos nosso melhor, e foi lindo, e foi saudável, e vicejamos, cada um à sua maneira. Foi não, é, porque você ainda está aqui, e eu – depois de muita deliberação – decidi que, até que você vá, continuarei a estar com você por inteiro. Então, sim, foi tudo isso. Mas não o suficiente, não totalmente. Era – ou melhor, éramos – uma questão de tempo, e não por culpa sua ou minha, mas porque nossas necessidades são tão variadas quanto aquilo pelo qual estamos dispostos a lutar, e os preços pelos quais estamos dispostos a pagar. E eu tenho sede.

“E se eu fosse?”, penso eu. Os obstáculos imediatos seriam eliminados. Mas fazer isso seria pensar em você, não em mim. Assim como ficar, para você, seria abrir mão dos seus desejos para estar ao meu lado. Nós nos perderíamos, e só fomos capazes de ser tão felizes juntos porque sabíamos ser felizes separados.

Ah. Mas fomos – somos – tão, tão felizes.

Luto.

Poucos dos rostos presentes me eram familiares, pois crescemos separados; os laços de sangue, nessa hora, não implicam proximidade. Ainda assim, meus olhos ardiam devido às lágrimas que tentava conter: é que a dor e a perda são linguagens universais, e aqueles sentimentos me eram bastante conhecidos para que permanecesse impassível. E mais uma vez me dei conta de que, quando a tristeza de alguém está à flor da pele, não é preciso que sejamos diretamente afetados para que nos doamos junto.

Túmulo.

Três anos depois daquele dia horrível, em que o mundo foi destruído e precisou se refazer, retiramos seus ossos daquele jardim de lápides e a trouxemos para cá, lugar que chamamos de lar e que somente conheceu quando era pouco mais do que um sonho, para que seu corpo faça morada em um túmulo muito mais apropriado, junto a um pé de jasmim e coberto de grama verde, uma eterna primavera.
Enquanto fitava aquela caixa retangular, alva como são os ossos em minha imaginação, pensei como é estranho que bem ali, prestes a ser enterrada em um pedacinho de terra, esteja tudo que restou do que ela foi um dia.
Mas que bobagem, percebi. Minha mãe, meus tios e tias, e mesmo eu, assim como meu avô e todos que a conheceram e amaram, somos todos frutos de quem ela foi: se não do corpo, dos ensinamentos, do carinho e da história compartilhada. Como fui tolo, céus, por chegar a pensar que aquilo era tudo que restara dela.
Obrigado.

Noite.

Rodei incontáveis vezes sob aquele céu amplo e cheio de estrelas, excessivamente claro mesmo para uma noite de primavera. Sob os pés, a grama molhada remetia à infância e a uma ancestralidade primitiva, em que meu corpo vibra em contato com a natureza primeva. E, em meio a esta tranquilidade que vem da simplicidade, as possibilidades de tristezas futuras e a prova de que nada, absolutamente nada é imutável. E isso, eu me lembro, já foi motivo de pranto e de júbilo.

Agora deitado, apenas espero que, o que quer que aconteça, os motivos para sorrir sejam mais abundantes. E que não seja um sorriso de resignação ou de desespero, mas de êxtase.

Que bela palavra carregada de promessas. Êxtase.

Confiança.

Sentira-se tentado, algumas vezes, a sucumbir às atitudes mesquinhas e aos sentimentos por trás delas; aqueles momentos de fraqueza e cansaço pelos quais todos corremos o risco de passar, você sabe, ou imagino que deva saber. Ainda assim, deu uma veemente recusa à possibilidade de ser outra coisa que não aquilo que era, e não permitiria que sua coragem fraquejasse: não devido à confiança que tem nos outros, veja bem, mas algo mais poderoso. A confiança que possuía em si mesmo. Desse modo, não se perderia; e, enquanto tivesse a si mesmo, ficaria tudo bem.

Tudo bem.

Dragão.

A batida de suas asas provocava um vento morno que balançava os cabelos e arrancava pequenas pedras do chão; no entanto, nada se comparava ao calor do seu peito, dos seus olhos, da língua de fogo que brilhava por entre as presas e que se refletia nas escamas luzidias. Os dragões, vocês sabem, eles são fogo, carne e céus amplos, muito azuis ou muito escuros, mas sempre aparentemente intermináveis. Nesse ponto, lembram bastante os estegossauros, e talvez por isso se deem tão bem – são, ambos, extraordinários.